Castillo vence apuração no Peru, mas resultado oficial depende da justiça após alegações de Fujimori

Após quatro dias, apuração foi praticamente concluída, mas adversária pediu a anulação de 800 mesas eleitorais por fraude. Revisão deve atrasar em duas semanas o desfecho

Segundo a apuração divulgada pela ONPE, órgão eleitoral do país, Castillo teve 50,199% dos votos válidos (8.800.486 no total), contra 49,801% (8.730.712) da adversária. A votação teve uma enorme participação popular, com mais de 74,7% do eleitorado indo às urnas. 

Fujimori não aceitou o resultado e tenta, na justiça, a anulação de algumas das atas em uma tentativa de reverter o resultado.

Fujimori expôs publicamente na segunda notícias que circulam nas redes sociais para mostrar a fraude. Na quarta, falou sobre um plano orquestrado por Castillo. Essa tese sustenta que o partido de Castillo, executou com precisão um plano que envolve centenas de pessoas para burlar o sistema.

Autoridades eleitorais e observadores não encontram sinais de fraude no Peru

“Percebemos que houve uma estratégia por parte do Peru Livre para distorcer ou atrasar os resultados da vontade popular, e me refiro ao processo de impugnação das urnas, onde a maior parte dessas impugnações, sobretudo, buscam impedir que as urnas que têm mais votos para o Força Popular não sejam contadas”, denunciou Keiko em entrevista coletiva um dia após a votação. Em seguida, citou “sinais de fraude na mesa”.

Peru Livre é o partido de Castillo e Força Popular, o de Keiko.

Ela anunciou que solicitaria a anulação de 802 urnas ao Júri Nacional Eleitoral (JNE). O anúncio foi feito na noite de ontem, quando o Escritório Nacional de Processos Eleitorais (Onpe) já tinha 99,1% dos votos contabilizados.

Até 7 de junho, o JNE havia registrado 148 ocorrências durante a votação, como propaganda ilegal, marcações a favor de candidatos nas cabines, eleitores que se recusaram a participar das assembleias de voto, entre outros. “Há incidentes que são relatados, mas que não significam fraude, de forma alguma”, disse uma assessora de comunicação da JNE ao AFP Fact Check em 9 de junho, acrescentando: “Fraude é quando atos sistemáticos e premeditados têm efeito direto na votação, o que não existe”.

– Casos relatados –

Eleitores recorreram às redes sociais para denunciar supostas irregularidades, como a de um representante do Peru Livre que teria marcado 87 cédulas a favor de Castillo.

A pessoa envolvida foi detida em uma seção eleitoral no distrito de Carabayllo, em Lima, e o Onpe substituiu as cédulas que encontrou em seu poder por novas.

Em 7 de junho, o Onpe afirmou que esses votos não foram assinalados no campo Peru Livre. O Ministério Público garantiu que a pessoa assinalou “87 cédulas de voto com inscrições fora dos símbolos e fotografias dos candidatos” e que será investigada em liberdade.

A mídia peruana noticiou que em Tumbes (norte) um representante do Força Popular marcou três notas de voto a favor de Fujimori. Como no caso anterior, o Onpe garantiu que essas cédulas foram substituídas, que a mulher foi presa e que o caso seria investigado.

Nas redes sociais, foi reportado que cédulas foram marcadas a favor do Peru Livre na cidade de Chiclayo, onde a mesma medida foi tomada.

– Autoridades e observadores –

Susana Vital, gerente de comunicação do Onpe, confirmou à AFP que os casos denunciados na imprensa estão em poder do Ministério Público.

Com 99,9% dos votos processados, os Júris Especiais Eleitorais (JEE) continuaram a analisar nesta quinta-feira 684 votos observados enviados pelo Onpe. Essas entidades, sessenta no total, decidem em primeira instância a validade desta ata. Até o momento, decidiram anular 134.

Quanto ao pedido de anulação das 802 urnas, feito por Fujimori, cada registro será analisado por um JEE. A palavra final pertence ao JNE, que analisa as decisões do JEE e proclama o vencedor.

Essas eleições foram observadas por equipes da Organização dos Estados Americanos (OEA), da União Interamericana de Organizações Eleitorais (Uniore) e da organização civil Transparência Peru. Em seus respectivos relatórios, nenhum deles evoca indícios de fraude.

A OEA mencionou que tem conhecimento de incidentes isolados de votos marcados, mas destacou a atuação das autoridades a esse respeito. A Uniore fez sugestões de treinamento para mesa e acessibilidade para pessoas com deficiência.

Já a Transparência Peru detalhou que de um total de 175 eventos, 10 correspondem a casos de cédulas marcadas a favor de um candidato, três são relativos a marcações nas cabines favoráveis a um partido, entre outras.

Procurador pede prisão preventiva de Keiko Fujimori

A candidata à Presidência do Peru, Keiko Fujimori, teve prisão preventiva solicitada pelo procurador José Domingo Pérez, membro da força-especial Lava Jato no país.

De acordo com Pérez, Keiko tem descumprido as regras de sua liberdade condicional ao comunicar-se com testemunhas do processo no qual é investigada.

Keiko é acusada de receber fundos ilegais para a sua campanha eleitoral de 2011, em inquérito que apura a atuação da Odebrecht no Peru.

Ela foi detida em 2019 e deixou a prisão preventiva em 2020. A candidata nega ter cometido qualquer infração.