FAB reduzirá compra do KC-390 e fala em até 70 caças Gripens

O novo Comandante da Aeronáutica do Brasil, tenente-brigadeiro do ar Carlos de Almeida Baptista Júnior, deu uma entrevista ao jornal Valor Econômico, onde comentou sobre a negociação com a Embraer para o KC-390 e a possível compra de adicionais caças Gripen.

O comandante detalha os motivos que o levaram a renegociar com a Embraer o contrato de aquisição de 28 aeronaves KC-390 Millenium. O potente cargueiro da Força Aérea Brasileira (FAB) foi desenvolvido em parceria com a empresa, em projeto iniciado em 2009, e subsidiado, pelo governo brasileiro, em negócio estimado em US$ 1,3 bilhão na ocasião.

O número de 28 aeronaves inicialmente contratadas ficará entre 13 a 16, em decisão a ser tomada nos próximos três meses.

Até agora, quatro aviões foram entregues à FAB. O avião foi estratégico na reação a crise de saúde pública em Manaus no começo do ano, porque transportou oxigénio no dobro da velocidade dos antigos C-130 Hércules.

KC-390 em teste de “contato seco” de reabastecimento aéreo com caças F-5 da FAB

Na linha de produção em Gavião Peixoto o projeto enche os hangares os Embraer e olhos de quem vê. A montagem do KC-390 é complexa. Componentes fabricados por lá mesmo e outros vindos de Portugal, Argentina e Republica Tcheca são combinados na unidade no interior de São Paulo e preparados para o voo.

Baptista Jr também falou sobre a necessidade de compra de um segundo lote de caças Gripen — os primeiros aviões começam a ser entregues no fim do ano.

O primeiro protótipo chegou no ano passado. A previsão de entrega dos quatro primeiros da série (de 36) é no fim do ano, começo do ano que vem.

Compramos o primeiro lote, mas nossa expectativa e que seja algo em torno de 60 ou 70 aeronaves. Esse contrato contempla 36. Em breve, estará na hora de começarmos a falar de um segundo lote. Com um país do tamanho do Brasil, não dá para se falar em apenas 36 aviões de caça, disse o Comandante da Força.

Confira trechos da entrevista:

Essa redução de aviões não gera prejuízo puro a estratégia nacional de defesa?Logicamente que, independentemente do pais ou da riqueza dele, as necessidades parecem sempre maiores do que as possibilidades. O Brasil é complexo, tem enormes demandas na saúde, na educação e também na área da defesa. Esse é o jogo: qual é a capacidade que o pais consegue aportar para cada um desses problemas. Na defesa, os governos têm procurado fazer o máximo dentro dessa equação orçamentária, mas isso se mostra abaixo, e já tem se mostrado abaixo há algum tempo. Não falo de governos, falo de realidades orçamentárias.

A limitação orçamentária afeta projetos das três Forças?Na Marinha, o almirante [Almir] Garnier está com problemas para manter o ritmo do PROSUB (programa de desenvolvimento de submarinos), o Exército, para tocar o ASTROS2020 (unidade de foguetes e mísseis) e o SISFRON (sistema de monitoramento de fronteiras). Passamos muito tempo relegando a segundo plano o reequipamento das Forças. Levamos 20 anos para decidir que o caça brasileiro seria o Gripen. Uma força aérea é feita de pessoal, treinamento, infraestrutura, mas o principal é o avião. Para este ano, temos somente 50% dos recursos para pagar o financiamento do KC-390 e do Gripen.

Mas este governo se apresenta como nova gestão que valoriza as Forçar Armadas?No ano passado, teve a necessidade de se colocar recursos no combate à pandemia e isso tem que sair de algum lugar, até porque temos a PEC do teto dos gastos. Há necessidade de se priorizar. Isso não é uma crítica, é um problema de difícil solução da sociedade diante de necessidades como educação, infraestrutura, saúde e Forças Armadas.

Dentro do restrição orçamentária, quais os planos para sua gestão?
A prioridade é a atividade-fim, então, estamos fazendo um programa sério de redução do custeio da máquina. A FAB já voou 170 mil horas por ano, agora voamos 120 mil. Não tem mais como reduzir o treinamento dos pilotos nem o número de aeronaves.

Como está a execução do contrato dos caças Gripen? O primeiro protótipo chegou no ano passado. A previsão de entrega dos quatro primeiros da série (de 36) é no fim do ano, começo do ano que vem. Mas depois que a aeronave fica pronta existe o processo de recebimento, o treinamento dos pilotos de prova. Mas já temos os recursos para isso.

Há previsão de ajustes também no contrato do Gripen?Compramos o primeiro lote, mas nossa expectativa e que seja algo em torno de 60 ou 70 aeronaves. Esse contrato contempla 36. Em breve, estará na hora de começarmos a falar de um segundo lote. Com um país do tamanho do Brasil, não dá para se falar em apenas 36 aviões de caça.

A NAV Brasil foi criada a pedido dos militares, mas vai na contramão do programa de privatizações do Ministério da Economia. Qual a necessidade da estatal?A FAB faz a grande maioria do controle de tráfego do Brasil, mas algumas torres de controle, algumas estações, estão dentro de uma divisão da INFRAERO. A criação da NAV retirou da INFRAERO essa atividade de navegação aérea para centralizá-la no Ministério da Defesa. Com isso, a INFRAERO vai se ocupar de sua missão: a infraestrutura aeroportuária.

Quando a NAV Brasil entra em operação?Deve ser criada até 30 de junho. Antes tem que ser feita a cisão da Infraero, a assembleia de criação, o balanço da cisão, e aguardar o parecer da PGFN (Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional).

As Forças Armadas estão acompanhando as operações de militares russos no fronteira com a Venezuela?As Forças Armadas logicamente monitoram a conjuntura da nossa região. A Venezuela tem uma dependência grande da Rússia para manutenção dos equipamentos militares. Com os bloqueios, o País optou por equipamentos russos, como os jatos Sukhoi, radares, artilharia antiaérea. É muito constante a presença russa na Venezuela. É nossa missão de defesa acompanhar esses movimentos, mas não é nada de atípico.

Voltando ao presente, o senhor acredita que a zona de turbulência foi ultrapassada?Agora nós já voltamos ao voo de cruzeiro depois da substituição (dos três comandantes militares). Logicamente, isso não era desejável mas não nos inquieta, porque entendemos que são cargos de livre provimento do presidente da República.

Esse movimento gerou inquietude na sociedade e até rumores sobre intervenção militar. O senhor vê algum risco de ruptura institucional?Não vejo qualquer possibilidade fora da Constituição. Por vezes, parece que queremos continuar convivendo com alguma possibilidade de intervenção militar, de golpe militar. Não haverá isso, e isso é repetidamente passado para o povo. Mas às vezes parece que temos ainda uma desconfiança, ou que precisamos disso para justificar alguma coisa. Todos os presidentes da República, todos os ministros da Defesa, todos os comandantes, repetidamente, dizem que não haverá qualquer ação fora da Constituição. O povo não precisa desse fantasma.

Mas ainda há setores da sociedade que pedem intervenção militar.
Isso não reverbera dentro das Forças Armadas. Eu nem poderia sugerir isso. Na minha ordem do dia (no dia da posse), eu disse ao presidente: o senhor acaba de me dar autoridade e responsabilidade, e me manterei dentro das quatro linhas da Constituição (do artigo 142, que define as atribuições das três Forças).

Como a FAB está atuando no combate à pandemia?A FAB foi o primeiro ator estatal a atuar na pandemia com a Operação Regresso: enviou quatro aviões e seis tripulações para resgatar os brasileiros em Wuhan (China) e depois fizemos a quarentena do grupo na base aérea de Anápolis. Nenhum dos nossos tripulantes se contaminou. Foi uma operação de guerra de pronta resposta.

Como a FAB atuou no colapso do oxigénio em Manaus?Eu era o comandante logístico e participei muito (do episódio), inclusive em contato direto com o Ministério da Saúde, em contatos pessoais com o ministro (Eduardo) Pazuello. Tivemos uma explosão na demanda impossível de se prever. Estávamos usando os C-130 para transportaras cilindros de oxigênio, que é o oxigênio gasoso. Mas o líquido é 960 vezes mais eficiente e exige cilindros maiores de alta pressão. Ainda não havíamos concluído toda a certificação do KC-390. Existe a válvula de alívio da pressão e havia conexões, para isso que não estavam prontas. Com o apoio da Embraer, a gente fez isso de uma quinta-feira para sábado, e o KC-390 entrou na operação.

O KC-390 teve papel estratégico nessa missão?Fizemos uma ponte aérea para transportar oxigénio de São Paulo para Manaus. Levávamos oxigênio e devolvíamos o cilindro vazio. Existe uma equação logística muito difícil São Paulo-Manaus é mais longe do que Paris-Moscou, O KC-390 voa no dobro da velocidade do C-130, e se mostrou mais eficiente no que planejávamos. Foi uma parceria muito bonita com a White Martins. Só me lembro de uma operação como essa, nos meus 46 anos de FAB, no terremoro do Haiti.